O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio — Como Reviver uma Franquia | Review

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A saga O Exterminador do Futuro é provavelmente uma das mais azaradas de Hollywood. Depois dos dois primeiros filmes de James Cameron, que são clássicos atemporais, houve diversas tentativas malsucedidas de produzir continuações ou reboots da franquia sem qualquer envolvimento do cara que a idealizou pra começo de conversa. Não precisa dizer que, entre essas tentativas, as que acabaram se concretizando resultaram em verdadeiras porcarias (é claro que estou me referindo especialmente àquela grande pilha de bosta chamada Genisys).

É por isso que O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio (título original Terminator: Dark Fate), dirigido por Tim Miller (Deadpool), me deixou bem curioso quando foi anunciado. Além de marcar o retorno de James Cameron à franquia (no papel de produtor e roteirista) e de Linda Hamilton ao papel da heroína Sarah Connor, Destino Sombrio seria uma continuação direta do clássico O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final, ignorando os eventos de todos os filmes posteriores e fazendo um “limpa” na cronologia cada vez mais confusa da franquia.

E como foi o resultado? Em resumo, foi melhor do que eu esperava.

Linda Hamilton retorna como Sarah Connor, a verdadeira heroína da saga.

Após um prólogo que será certamente divisivo entre os fãs da franquia — mas que eu pessoalmente achei uma escolha bem corajosa por parte dos roteiristas —, a trama principal de Destino Sombrio gira em torno de duas personagens inéditas: Daniella “Dani” Ramos (Natalia Reyes), uma adolescente mexicana que trabalha em uma fábrica de automóveis; e Grace (Mackenzie Davis), uma soldado modificada ciberneticamente que é enviada do futuro para proteger a garota. 

Ambas estão em rota de fuga após um novo modelo de Exterminador chamado Rev-9 (Gabriel Luna) ser enviado ao passado com o objetivo de matar Dani, e assim se encontram com Sarah Connor (Linda Hamilton, retornando à franquia depois de quase 30 anos), agora uma senhora alcoólatra e rabugenta que caça Exterminadores para prevenir um possível apocalipse, mesmo após ter evitado a ascensão da Skynet em sua última aparição.

Grace (Mackenzie Davis) e Dani (Natalia Reyes), as protagonistas deste novo capítulo.

São esses personagens e suas interações que formam o ponto forte do filme. Pela primeira vez desde os clássicos, eu estava realmente investido na história porque simpatizava com os personagens e me importava com o que acontecesse com eles, pois o elenco principal desse filme — que também inclui Arnold Schwarzenegger no papel de um T-800 que escolheu viver e envelhecer como humano após escolher sua missão — é bastante carismático e dotado de uma vulnerabilidade que é fundamental para dar à narrativa a gravidade que ela merece.

Ao centro dessa trama simples e sem grandes surpresas que consiste basicamente numa longa perseguição, há um eixo temático sobre a importância de se encontrar um propósito para si mesmo, dando a Destino Sombrio um peso emocional que faz lembrar os filmes originais. Os arcos dramáticos de todos os personagens principais refletem esse tema e acabam se alinhando de forma impecável no ato final.

Essa simplicidade e coesão refletem bem o objetivo de Destino Sombrio: esse filme não perde tempo explicando jargão pseudocientífico ou armando sequências que provavelmente não acontecerão. Ao invés disso, James Cameron e o resto da equipe se comprometem a contar uma história completa, que funciona primariamente como um filme stand-alone mas pode eventualmente evoluir para uma nova trilogia.

Arnold Schwarzenegger como “Carl”, um T-800 envelhecido.

No entanto, isso não significa que a história de Destino Sombrio esteja livre de defeitos. Em sua determinação de retornar a franquia às raízes, os roteiristas do novo filme acabaram confeccionando uma trama que é essencialmente um retread dos dois primeiros capítulos da saga, combinando elementos de ambos numa narrativa que, mesmo divertida e envolvente, passa uma constante sensação de déjà vu com a forma que a sequência de eventos é exposta.

E isso nos traz ao ponto principal (que é o motivo que leva as pessoas ao cinema pra assistir esse tipo de filme), que são as sequências de ação. Provavelmente temos aqui as melhores cenas de ação da franquia desde Julgamento Final (o que não é muito difícil tendo em vista o baixo patamar que as demais continuações estabeleceram), com coreografias bem-elaboradas e uma geografia de cena bastante legível que permite às audiências acompanhar perfeitamente o que está acontecendo.

As duas metades de Rev-9 (Gabriel Luna): uma carapaça de metal líquido e um endoesqueleto sólido, que conseguem agir de forma independente um do outro.

Mas aí temos um sintoma da síndrome do “quanto maior, melhor” que acomete as franquias de ação atualmente, que consiste em tornar as setpieces de um novo filme cada vez mais bombásticas em relação aos anteriores com o intuito de justificar a existência da produção mais recente. Quando essa escalação não é implementada corretamente, ela pode comprometer muito a verossimilhança de uma obra.

O vilão Rev-9 é um bom exemplo disso: embora o conceito de um Exterminador que se divide em dois seja uma evolução fodástica do T-1000 de Julgamento Final e a atuação de Gabriel Luna seja apropriadamente medonha, o personagem tem uma presença menos ameaçadora nas cenas com maior uso de CGI, onde seus movimentos animalescos que ignoram as leis da gravidade ficam tão artificiais a ponto de prejudicar um pouco a imersão.

Além disso, tive um probleminha pessoal com as cenas situadas à noite no que diz respeito ao color-grading aplicado ao filme durante a pós-produção. Esse filtro dá às cenas noturnas um visual monótono e às vezes torna difícil enxergar o que tá acontecendo nelas.

Eu literalmente esperei minha vida inteira por esse reencontro.

Mesmo com esses defeitos, o resultado de Destino Sombrio é uma experiência divertida e envolvente que pela primeira vez me deixou esperançoso para o futuro da franquia, visto que cada aspecto da produção e do enredo deixa claro que as pessoas envolvidas nesse projeto têm grande respeito pela franquia. Afinal, a história desse novo capítulo da saga foi concebida pelo próprio James Cameron então isso deve valer alguma coisa, certo?

Provavelmente os fãs mais puristas que estão com um pé atrás a respeito de Destino Sombrio ficarão enfurecidos com algumas decisões mais arriscadas tomadas pelos roteiristas, porém recomendo que assistam esse filme com a mente aberta. Mesmo não sendo algo que vai mudar a sua vida, ainda há muita coisa boa aqui pra ser apreciada.

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