Morto Não Fala – E nem descansa em paz | Review

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O longa nacional de horror dirigido por Dennison Ramalho e baseado num conto de Marcos de Castro conta a história de Stênio, homem que possui um dom, ou maldição, de de conversar com os mortos.

Somos apresentados a uma atmosfera sangrenta, devido ao fato do protagonista trabalhar como médico legista em um necrotério, costurando cadáveres e também conversando com eles. Atmosfera essa que permanece durante todo o longa, assim como o cheiro de sangue e cadáver fica em Stênio após sair do trabalho.

Fazer filmes de gênero em solo nacional é algo um tanto difícil pela falta de visibilidade, mas que felizmente vem crescendo e enriquecendo as possibilidades do nosso cinema nacional. Morto Não Fala se utiliza de convenções do gênero do terror e horror para explora medos locais e cotidianos.

Stênio com um cadáver no início do longa

As sequências mais sangrentas vão além dos exames no necrotério, que são mostrados com detalhes junto da utilização de bonecos, próteses e maquiagem, o que funciona muito bem e acrescenta um ar visceral para as cenas.

O longa utiliza de CGI para algumas sequências, não só as de horror e sustos, como a mudança de um rosto para outro ou uma cabeça solta conversando, situação em que o uso de CGI é mais necessário, mas também para recriar o rosto de atores nos cadáveres de seus personagens.

Acredito que seja uma decisão com seus prós e contras, mas principalmente contras, pois realmente não vejo a necessidade de usar um CGI que peca em ter semelhanças reais com os atores e é facilmente perceptível pelo aspecto plástico, enquanto poderia se usar atores com maquiagem durante esses momentos de conversação com os cadáveres. Mesmo que a utilização de atores nesses momentos aconteça, é bem pouca, mas ainda sim rende closes mais profundos no olhar e expressões mais verossímeis.

O filme funciona como uma crescente, desde o início já somos apresentados a realidade bizarra em que o personagem principal vive com seu dom, algo que não é proposto a ser explicado e sim explorado para o avanço da trama. Quanto mais a trama avança, mais características do terror e horror vão aparecendo e sendo construídos.

O longa tem sim os famosos “jumpscares” e truques das convenções do gênero, mas Dennison Ramalho tem um ótimo controle na construção de sequências tensas que conseguem nos deixar na ponta da cadeira e impactados com tudo aquilo. Sem falar do interessante modo que o roteiro explora o sobrenatural, utilizando de medos relacionáveis com nosso senso comum e construindo a narrativa junto a isso.

Daniel de Oliveira protagoniza o longa, carregando a maior parte dramática com seu conflituoso personagem Stênio, tudo isso feito com segurança nos entregando uma performance crível e complexa. Fabíula Nascimento e Bianca Comparato também estão excelentes nos entregando performances que não só exploram personagens mais identificáveis no cotidiano brasileiro, mas que também exploram os extremos de personagens das convenções do gênero do horror e terror.

A camada social do filme não é algo muito profundo, mas acredito que a proposta realmente não era essa, e fora isso, o longa pode ser aproveitado inteiramente sem dificuldades, pois suas camadas são de fácil entendimento para serem exploradas.

No fim, Morto Não Fala é um belo exemplo de filme nacional de gênero, explorando medos cotidianos e do senso comum brasileiro para construir uma realidade bizarra e sangrenta, que vai de um complexo drama familiar urbano até o mais conhecido do horror e terror.

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