Explorando The Expanse (Parte 3) – O Portal de Abaddon

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Quando os escritores Daniel Abraham e Ty Franck se uniram para conceber a saga literária The Expanse sob o pseudônimo “James S A Corey”, eles buscaram seguir uma estrutura que pode ser denominada como “trilogia de trilogias”: nessa saga composta por nove livros (dos quais oito já foram publicados), cada trio de volumes corresponderia a um ciclo onde todos os conflitos giram em torno de um mistério central, com uma conclusão que expande (trocadilho não-intencional) o escopo da história e abre caminho para o ciclo seguinte.

O primeiro destes ciclos é composto por Leviatã Desperta (lançado no Brasil pela Editora Aleph), Caliban’s War e Abaddon’s Gate (ambos sem tradução oficial), que foram adaptados nas três primeiras temporadas dessa série televisiva fodástica que leva o mesmo nome da saga literária.

Bem vindos, senhoras e senhores, à parte final da retrospectiva de The Expanse! Neste capítulo cobrirei a terceira temporada, a última produzida pelo canal SyFy antes da série ser cancelada e posteriormente revivida pela Amazon, e falarei sobre como esses treze episódios abalam completamente o status quo do sistema solar no século XXIV e abrem caminho para infinitas possibilidades no futuro de The Expanse.

Da esquerda para a direita: Bobbie (Frankie Adams), Prax (Terry Chen), Jim (Steven Strait) e Amos (Wes Chatham)

Fogo Cruzado

Gostaria de, antes de tudo, dar um destaque especial ao primeiro e segundo episódios, que em conjunto são praticamente uma aula-magna no que diz respeito a construir um ensemble thriller onde a tensão se mantém constante ao longo dos arcos dramáticos aparentemente desconexos protagonizados por personagens que até o momento nunca haviam se encontrado.

A primeira coisa que vemos é uma long take que refresca nossa memória passando por todos os principais pontos de interesse conhecidos até o final da segunda temporada: os restos da nave de pesquisa em Vênus, que fora “desconstruída” (no sentido literal da palavra) ao descer em alta velocidade para analisar uma misteriosa estrutura criada pela protomolécula; Terra e Marte, com suas frotas partindo para a luta; a Estação Tycho, cujo dono acabou de se tornar um forte candidato à liderança da OPA (Aliança dos Planetas Exteriores) graças à amostra da protomolécula que Naomi Nagata (Dominique Tipper) entregou a Fred Johnson (Chad L. Coleman) ao final da temporada anterior; e por fim parando nas luas de Júpiter, onde as frotas terrestre e marciana se enfrentam em combate.

As tensões finalmente evoluíram para uma guerra aberta, motivada pelo medo e ganância de diversos indivíduos – tais como o vilão Sadavir Errinwright (Shawn Doyle) – frente às inúmeras possibilidades trazidas pelo primeiro contato com vida alienígena, que ocorre em diversas frentes na primeira metade dessa temporada.

Na Terra, Errinwright manipula o Secretário-Geral da ONU Esteban Sorrento-Gillis (Jonathan Whittaker) para aquecer as chamas do conflito, incentivando seu superior a declarar guerra oficialmente, e arma para transferir a própria culpa de suas traições para Chrisjen Avasarala (Shoreh Aghdashloo). Avasarala, por sua vez, está acompanhada por Bobbie Draper (Frankie Adams) e Cotyar Ghazi (Nick E. Tarabay), à deriva no iate de Jules-Pierre Mao (François Chau) logo após terem sido vítimas de uma cilada que quase custou a vida de Cotyar.

Na Rocinante, a tripulação está remendando a nave depois da luta contra o monstruoso híbrido de protomolécula criado por Lawrence Strickland (Ted Atherton), mas essa “família” que os membros da Roci construíram ao passar por tantas adversidades juntos começa a dar sinais de enfraquecimento após a descoberta da traição de Naomi. Para se ocultar em meio ao que está prestes a se tornar uma zona de guerra, a Roci tem sua assinatura de transponder alterada para Pinus contorta sob sugestão do tripulante honorário, o botânico Praxideke “Prax” Meng (Terry Chen), que justifica esse nome com uma metáfora bastante pertinente: as coníferas da espécie Pinus contorta só conseguem crescer e sobreviver ao passar pelo fogo.

O personagem Prax se encontrou com os tripulantes da Roci na colônia de Ganimedes, onde costumava trabalhar em uma fazenda de soja antes do incidente que obrigou todos os habitantes a evacuarem a remota lua de Júpiter. Prax se junta ao grupo com o objetivo de encontrar sua filha Mei (Leah Jung), que possui uma imunodeficiência rara e está sendo usada pelo doutor Strickland como cobaia para seus experimentos com a protomolécula, denominados “Projeto Calibã”. 

Uma cobaia do Projeto Calibã.

A nave recém-renomeada está parada no meio do nada pois precisa se manter oculta, mas as tensões entre os tripulantes tornam seu interior bastante turbulento. No centro do conflito, está James Holden (Steven Strait), que agora vive o próximo estágio de sua evolução como personagem: se na primeira temporada Jim lutava contra o próprio impulso de passar o resto da vida se esquivando das próprias responsabilidades, e na segunda temporada precisou aceitar o manto de líder que fora imposto sobre ele, a terceira temporada traz uma dimensão quase metalinguística para esse conflito ao mostrar Holden a status como protagonista dessa complicada teia de eventos que constitui o enredo de The Expanse.

Naturalmente, um dos pilares sobre os quais esses episódios de abertura se sustentam (e o mais interessante de se ver) é o conflito interno de Holden consigo mesmo. Enquanto a perspectiva de Chrisjen e Bobbie segue uma estrutura bem objetiva que remete à constante tensão de um filme de Hitchcock, as cenas situadas na Roci levam ao limite os relacionamentos construídos entre os tripulantes da nave desde a tragédia que acometeu a traineira Canterbury no episódio-piloto, assim como testam a força de vontade de cada personagem frente aos inúmeros eventos traumáticos pelos quais cada um passou durante a série.

Alex Kamal (Cas Anvar) e Amos (Wes Chatham) em uma de suas muitas discussões.

Assim, a metáfora que Prax fez com o Pinus contorta se faz ainda mais pertinente, tornando o nome provisório da nave ainda mais significativo para esse momento da narrativa: a Roci está passando por uma prova de fogo. Ao contrário do que se imagina como uma “prova de fogo” na ficção, a tripulação da Roci vive esse momento crucial em uma dimensão introspectiva que consegue ser muito mais pungente do que qualquer coisa que eles poderiam ter feito caso tivessem optado seguir o caminho mais seguro e solucionar esse problema com uma grande batalha espacial.

Claro que a dita batalha espacial acontece, mas só depois de a tripulação da Roci finalmente superar (ou ao menos aceitar) as falhas de cada membro e voltarem a trabalhar em conjunto como antes, decidindo de uma vez por todas partir para a ofensiva em direção a Io, onde Strickland e Jules-Pierre Mao supervisionam o Projeto Calibã em segredo. No caminho eles atendem um pedido de socorro de Bobbie Draper e Chrisjen Avasarala, que agora estão a bordo da Razorback (a nave de corrida de Julie Mao, que fora apenas mencionada anteriormente) e sendo perseguidas por uma fragata da Marinha das Nações Unidas.

O que se segue é um combate extremamente tenso onde a Roci precisa usar de seus recursos limitados para interceptar os mísseis disparados pela nave terráquea e incapacitá-la sem que ninguém morra (há um subplot sobre uma caixa de ferramentas que foi trancada do jeito errado e se abre no meio da batalha, mas não vou entrar em detalhes porque é muito foda).

Drummer (Cara Gee) disputando pelo posto de mulher mais foda da série.

Além dos personagens veteranos, temos duas novas perspectivas que têm o objetivo de não deixar que nenhuma frente dessa trama cada vez mais complexa permaneça inexplorada:

Camina Drummer (Cara Gee): a segunda no comando da Estação Tycho, que está se recuperando de ferimentos infligidos por um belter leal a Anderson Dawes (Jared Harris) durante um motim ocorrido na temporada anterior. A personagem foi elevada ao status de deuteragonista na terceira temporada, e tem suas motivações e ideologias melhor exploradas. Drummer é uma mulher extremamente pragmática que jurou lealdade a Fred Johnson por discordar dos métodos radicais de Dawes, mas isso não significa que ela concorde cegamente com todas as decisões de Johnson: nessa temporada, vemos como o pragmatismo e objetividade de Drummer agem como um contraponto à ambição quase doentia de Johnson, que na temporada anterior fora revelada como resultado de intenso remorso e uma vontade desesperada de se redimir. Mesmo com essas discordâncias, o objetivo de criar uma nação para os belters é o mesmo, e Drummer acredita que Johnson é a melhor opção para pavimentar o caminho rumo à emancipação do Cinturão.

Anna Volovodov (Elizabeth Mitchell): Reverenda da Igreja Metodista e uma velha amiga do Secretário-Geral Sorrento-Gillis, Anna é chamada à sede da ONU para ajudar o Secretário a redigir discursos persuasivos com o intuito de influenciar a opinião pública a favor das Nações Unidas, que está com sua credibilidade em crise e enfrenta intensos protestos anti-guerra. A personalidade de Volovodov é um raro caso de bondade e gentileza em meio a um ambiente onde imperam interesses egoístas e manipulações: em sua primeira cena, Anna enfrenta um policial da tropa de choque para fazê-lo parar de agredir um manifestante chamado Colin, e logo em seguida obriga esse policial a escoltar Colin para receber os primeiros socorros. Logo depois, a Reverenda Volovodov relutantemente aceita a proposta de Esteban para se juntar à equipe de redação de seu discurso, sob a condição de que o Secretário dê auxílio financeiro à clínica que a igreja de Anna vem mantendo para assistir “ilegais” gratuitamente. Essa personagem traz a perspectiva de alguém que caiu de cabeça no mundo da política mas não quer fazer parte do jogo político, e cujo idealismo é posto à prova através dos diversos atritos entre Anna e o insidioso Sadavir Errinwright.

Anna (Elizabeth Mitchell) sendo um amorzinho de pessoa para esconder a vontade de estrangular o secretário-geral (Jonathan Whittaker) por causa de suas péssimas decisões.

Outra perspectiva que vislumbramos em alguns momentos dos primeiros seis episódios é, curiosamente, a do próprio Jules-Pierre Mao. Exilado em Io após ser declarado oficialmente como criminoso pela ONU e ter todos os seus bens em solo terrestre confiscados pelo governo, Jules-Pierre vive um arco bem curioso à medida que cria um vínculo com Mei, filha de Prax e também uma das cobaias de Strickland no Projeto Calibã. A evolução do personagem nessas poucas cenas é algo muito interessante de se ver, e dá uma complexidade até então inexistente no vilão.

Ao final desse longo clímax de seis episódios, o sistema solar é um lugar completamente diferente. As tensões entre Terra e Marte recuam para o segundo plano à medida que a verdade sobre a protomolécula se torna de conhecimento público, e a OPA finalmente sai da clandestinidade e se consolida como uma nova força política nesse cenário conturbado.

Mas isso está longe de ser o limite para The Expanse. Como falei no início desse texto, a saga literária na qual a série foi baseada consiste em uma “trilogia de trilogias”. Essa terceira temporada de The Expanse, em seus primeiros seis episódios, adapta a segunda metade do livro Caliban’s War, mas a partir do sétimo episódio passa a adaptar – em sua totalidade – o terceiro livro: Abaddon’s Gate. Vou precisar entrar em alguns detalhes a seguir, então já fica o aviso de SPOILER.

Da esquerda para a direita: Naomi (Dominique Tipper), Ashford (David Strathairn) e Drummer (Cara Gee). A dinâmica desenvolvida entre os três na segunda metade da temporada é um dos pontos altos do arco.

Novos Horizontes

Logo após o fim da guerra, a gigantesca estrutura criada pela protomolécula em Vênus como resultado da colisão da Estação Eris na superfície do planeta, incidente no qual Joe Miller (Thomas Jane) se sacrificou para salvar a humanidade, começa a se comportar de maneira curiosa. O objeto se ergue para além da atmosfera, assumindo o formato semelhante a uma água-viva, e se desloca até os confins do sistema solar, onde se transforma em um estranho anel com mil quilômetros de diâmetro.

Quando um belter tenta atravessar essa circunferência massiva como parte de um esporte clandestino e é desintegrado violentamente, é descoberto que o anel se trata de um portal para uma dimensão alternativa. Mas qual o propósito desse “sub-espaço”? Essa era a missão da protomolécula desde o começo? Representantes de todas as facções, incluindo a tripulação da Rocinante e os membros da OPA em sua nave-capitânia Behemoth (a Nauvoo dos mórmons, que foi recuperada e reaproveitada após uma tentativa fracassada de usá-la como um aríete para empurrar a Eris rumo ao Sol), se dirigem ao misterioso portal para descobrir.

O epicentro de todo o conflito desse arco é o próprio James Holden, seguindo o tema predominante da temporada. Tornando-se celebridades interplanetárias a partir do momento que saíram da clandestinidade, Jim e a tripulação da Roci tentam lidar com a fama repentina e os riscos que ela pode trazer. Um desses riscos, por exemplo, é a conspiração central desse arco: uma mulher misteriosa cuja identidade não é tão difícil de adivinhar (Nadine Heimann) deseja virar todos contra Holden e eventualmente causar sua morte.

Thomas Jane está de volta, mas não da forma que você imagina.

A trama que se segue é algo bastante contido que contrasta com a escala épica dos episódios anteriores, funcionando tanto como um suspense de mistério quanto como um thriller psicológico. E por falar em questões psicológicas, preciso alertar que elas vêm com tudo nesse arco, tomando um rumo quase esotérico em alguns momentos onde personagens são confrontados com revelações que expõem a insignificância da humanidade perante o universo, sem falar nas reflexões a respeito de tópicos como a futilidade da vingança e a natureza violenta dos seres humanos.

Por fim, a história dessa temporada termina com algo que muda completamente o significado do nome The Expanse e faz com que tudo que veio antes se torne, retroativamente, apenas um prelúdio para uma história muito maior. Ao final do arco de Abaddon’s Gate, o gigantesco portal que se formou na borda exterior do sistema solar é revelado como parte de uma rede ainda maior de portais, que conectam inúmeros sistemas estelares, construída por uma espécie que fora extinta há muito tempo por razões misteriosas.

Assim, quase que imediatamente, o título The Expanse não diz mais respeito à expansão humana já ocorrida no sistema solar, mas sim à possibilidade de a humanidade ir além. A premissa se transfigura em algo ao mesmo tempo otimista e aterrador, pois agora a humanidade está diante não apenas de um organismo desconhecido, mas de uma miríade de mundos jamais vistos. Junto a essa possibilidade de descobertas, há a possibilidade de riscos inimagináveis e – considerando o nosso belo histórico – uma quantidade infinita de novos motivos para instigar conflitos e guerras.

Jim Holden (Steven Strait) contemplando o futuro da humanidade.

Além do Portal: O que o futuro reserva para The Expanse

Como mencionei várias vezes antes, a terceira temporada foi a última a ser produzida pelo canal SyFy antes de ser cancelada pela emissora devido à altíssima onerosidade de uma produção cada vez mais ambiciosa que infelizmente não atraía uma audiência tão grande quanto eles gostariam. No entanto, assim que o cancelamento foi anunciado, uma multidão de fãs indignados com o fa (que inclui nomes ilustres como o próprio George R. R. Martin) se mobilizou para ressuscitar The Expanse o mais rápido possível.

Acontece que o dono da Amazon, o empreendedor Jeff Bezos, também é um grande fã da série, então logicamente adquiriu os direitos de The Expanse para que a série continuasse vivendo como parte do acervo de produções originais para o serviço de streaming Amazon Prime Video.

Por fim, daqui exatamente um mês The Expanse estará de volta com uma nova temporada de 10 episódios que adapta o livro Cibola Burn, o quarto volume da saga literária. No entanto, o ponto no qual a terceira temporada se encerrou deixa claro que o universo ao qual retornaremos é infinitamente maior do que aquele que deixamos nas temporadas anteriores.

Uma pequena amostra do que podemos esperar na temporada seguinte.

Vocês já cansaram de ouvir que essa retrospectiva teve o intuito de convencer a todos vocês que ainda não assistiram The Expanse a dar uma chance à série,  e realmente espero que esses textos que publiquei ao longo dos últimos meses tenham demonstrado de forma apropriada o porquê de eu achar que essa é uma das melhores produções de ficção científica do Século XXI. A maestria empregada na criação da série, desde o design de produção até a narrativa meticulosamente construída que interliga diversas tramas de forma consistentemente coesa e satisfatória, é algo extremamente raro de se ver em obras do gênero nos últimos anos.

Por fim, resta lembrá-los que a quarta temporada de The Expanse será lançada dia 13 de dezembro no Prime Video, que é um serviço de streaming sensacional com uma mensalidade ridiculamente barata de R$ 9,90 ao mês. Obviamente, como o fanboy entusiasmado que eu sou, retornarei para fazer o review da nova temporada, então nos vemos mês que vem!

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